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O português é uma língua (mesmo) traiçoeira - I
Por Aurora Gomes (Professora), em 2012/01/27892 leram | 0 comentários | 215 gostam
O português é uma língua muito traiçoeira. Esta é uma frase que todos conhecemos. Na realidade, muitos de nós estão longe de saber como essa é uma verdade disfarçada de brincadeira.
Por isso, o Acordo Ortográfico (AO) de 1990, que entrou em vigor nas escolas no início do presente ano letivo, pretende somente atenuar algumas das imprevisibilidades do nosso idioma. Nesse documento refere-se que a finalidade do AO é simplificar e sistematizar vários aspectos da ortografia, eliminando-se algumas exceções e garantindo-se uma maior harmonização ortográfica. O que equivale a dizer que não vamos passar a falar como os brasileiros, como já se ouviu algumas vezes.
Se pesquisarmos um pouco (basta ler Camões ou Gil Vicente), percebemos que, em Portugal, até ao século XVI (e, segundo alguns estudiosos da língua, mesmo até ao século XVIII) os autores grafavam, escreviam, nos seus textos a mesma palavra de duas ou três formas diferentes. Há até uns mais radicais que afirmam que, só em 1911, com a publicação da primeira reforma ortográfica, essa variedade terminou. Se compararmos a situação do português com a do inglês, a do francês ou a do espanhol, para só se mencionarem as línguas das culturas mais próximas da nossa, verificamos que, por exemplo, no século XVI, elas apresentavam praticamente a mesma grafia que ainda hoje mantêm. Parece pois que a mobilidade é uma característica tipicamente lusitana. E, para agravar o problema, temos ainda um país, que é praticamente metade de um continente (o Brasil), que herdou o nosso talento para escrever de forma variada a mesma coisa! Mas será que, hoje, podemos viver num mundo onde, na mesma língua, cada um escreve quase como quer?
Ser professora de português permite, entre outras coisas, ter acesso à variedade ortográfica que os alunos nem sempre conseguem evitar. Por exemplo, as formas da 3.ª pessoa do plural, no presente do indicativo ou do conjuntivo, terminadas em -êem (dos verbos ter, ler, ver…), habitualmente são escritas pelos alunos das mais variadas maneiras, num exercício de uma tão prodigiosa imaginação criativa que só quem corrige trabalhos e textos escritos consegue realmente constatar. Por isso, parece fácil concluir que a supressão do acento circunflexo, prevista no AO para estes casos, apenas simplifica a forma, com benefícios evidentes para todos, não se prevendo que alguém vá reclamar pela perda do “chapelinho”. Outra alteração semelhante, apontada pelo AO, é a supressão do acento agudo nas palavras graves com ditongo tónico -ói. Assim, não acho que venha mal ao mundo por passarmos a escrever jiboia em vez de jibóia. Mas já se ouviram lamentos de quem considera ser esta uma perda praticamente irreparável, que provocará muitos danos nos textos futuros e que levará, talvez, até uma pronúncia incorreta (transformando-se o ói tónico em átono - como se fosse uma tia de Cascais a falar), esquecendo-se estes profetas da desgraça de que já há muito que todos nós escrevemos comboio e não combóio e nem por isso desatámos todos a falar como a Lili Caneças...


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