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Procuro fazer leitores
Por José Machado (Professor), em 2014/03/10860 leram | 0 comentários | 195 gostam
De umas leituras passo para outras e acabo a querer entusiasmar os alunos a lerem mais e cada vez mais cedo.
Comecei a ler Alfabetos, de Claudio Magris, um autor italiano que foi professor de língua e literatura germânicas e que foi senador; hoje um homem de 75 anos, preocupado com a compreensão crítica da cultura europeia e defensor até da criação de um estado europeu. Cheguei a ele por influência de Vasco Graça Moura que o acha um intelectual muito bem informado com uma cultura vastíssima e que atinge nesta obra uma dimensão esclarecedora do nosso acumulado literário, nosso em termos europeus globais. Mas não vou falar da obra, apenas a fixo para dela tomar uma curiosidade, a de começar o autor por nos dar uma repercussão em si das leituras que fez na infância e na adolescência, ou seja, desde muito novo. Se não lera o que leu não teria chegado onde chegou nem pensaria como pensa, é a conclusão imediata que se tira da primeira impressão e não fique o meu ouvinte a pensar que ele começou logo por ler livros de grande profundidade, não, começou pela literatura mais fácil de seu tempo, pelos livros que hoje catalogamos de aventuras. Disse logo cá para mim, vou falar disto na minha próxima crónica, em vez de me andar a perder com o problema insondável da indisciplina cuja solução nunca chegarei a equacionar com razoabilidade. A gente nunca perde por ler e por ler muito, seja o que for, mas de modo progressivo, lendo cada vez mais obras de complexidade crescente, intervalando com obras mais recreativas, misturando livros de fantasias e livros de informação plena, livros de investigação e divulgação e livros de anedotário variado. A gente de uns livros vai para outros. Procuro incentivar os meus alunos a lerem e a lerem sempre mais, mas não estou certo de o conseguir, só eles o dirão. Reconheço que hoje o tempo não está para a leitura, está para o devaneio por tudo o que não seja só texto e mais texto e de preferência não esteja em suporte de papel. A oralização tornou a ganhar domínio sobre a leitura, o palavreado informal ganhou terreno a esquemas pensados e preparados, o desmazelo da adivinhação ganhou espaço no calculismo da fundamentação. Verifico com alguma estranheza certos fenómenos de má leitura, mesmo após um tempo de preparação em silêncio, fenómenos esses que são ainda mais estranhos na leitura à primeira vista, fenómenos como o não reconhecimento imediato da acentuação das palavras, o passar por cima do que não se lê de imediato, a troca de sílabas, a projecção de palavras não existentes, a irregularidade da cadência da pontuação, a ausência de percepção do sentido. Há posturas na leitura que também me causam estranheza, como as mãos fora do livro, o corpo torto e o tom de voz inadequado. Mas o mais estranho, já agora para não deixar o mal por dizer, é que os alunos reagem mal a qualquer reparo ou correcção, mandam-me dizer a mim quando lhes assinalo anomalias, perdem a atenção, brincam, gozam e riem-se uns dos outros, ou seja, fazem do acto de ler uma recreação. Quando me deparo com alguém que lê bem, fico regalado a ouvir e só não lhe dou mais espaço porque as regras didácticas assim não recomendam. Alguns há que me pedem para não ler, ou seja, para não lhes pedir que leiam em voz alta, vontade que fica sempre por cumprir. Digo aos miúdos que ler é poupar anos de vida, porque a vida não vai permitir tempo de ver tudo, nem de conhecer muito, só a leitura permite ganhar tempo e permite ganhar etapas de conhecimento e de crescimento pessoal, a leitura tem a função solar de causar amadurecimento do fruto que somos. A leitura satisfaz a curiosidade e é por essa função que ela deve ser incutida, daí as histórias de fantasia serem muito iniciadoras do interesse em ler, mas nunca se sabe. Ler implica estar parado e hoje o bulício e o irrequietismo são marca de personalização, ler implica sossego, ler implica autonomia de vontade, dimensões que nem sempre são conseguidas na socialização continuada a que hoje são submetidas as crianças porque não podem estar sozinhas e os grupos são correntes de ar. Pode ser que a minha teimosia vá caindo em boa terra, como caiu em mim a motivação de meus professores e de meus companheiros e de meus livros primeiros.

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